sexta-feira, 31 de maio de 2013

IMPOSIÇÃO SEXUAL


No VT temos a citação no livro de Levítico que “deus” supostamente não aprovaria relações sexuais de homem como homem, e mulher com mulher. Acontece que a cartilha judaica de normas e condutas morais só tinha validade para o povo de Israel, excluindo o resto do planeta. Segundo os autores do velho testamento os judeus era um povo separado e escolhido. Não podemos viver fixado numa cartilha de ladainhas religiosas judaicas. Por outro lado Paulo deu suas opiniões pessoais sobre o assunto, segue quem quer.

Vamos analisar um estudo fantástico que o doutor Drauzio Varella postou em seu site sobre sexualidade. 

Desejos sexuais percorrem circuitos de neurônios que fogem do controle consciente. Nos anos 1960, época em que os homossexuais ousaram emergir das sombras nos grandes centros urbanos, os estudiosos, surpresos com tantos homens e mulheres que assumiam a homossexualidade publicamente, imaginavam que a questão teria caráter puramente comportamental. O termo “orientação sexual” se tornou tão generalizado que se infiltrou nos textos médicos, nos livros de psicologia e acabou aceito com orgulho pela própria cultura gay.

Essa visão, no entanto, jamais explicou a existência da homossexualidade em todas as culturas conhecidas, nem a precocidade de sua instalação definitiva em meninos e meninas muito antes do que costumamos chamar de idade da razão, nem o fato de que a maioria da população é heterossexual sem ter sequer cogitado a opção contrária. Insatisfeitos com essa interpretação comportamental e entusiasmados com os avanços obtidos pelo Projeto Genoma a partir dos anos 1990, os geneticistas têm procurado identificar a influência dos genes envolvidos na orientação sexual.

Em 2005, o debate dos genes versus ambiente ganhou dimensões inesperadas com a publicação na revista “Cell” de uma pesquisa impecavelmente conduzida na Academia Austríaca de Ciências, com drosófilas, as mosquinhas que sobrevoam bananas maduras, modelos de tantos estudos genéticos.
Há vários anos foi descrita nas drosófilas a existência de um gene-mestre (fru), capaz de orquestrar um grupo de genes encarregado de coordenar um circuito de 60 neurônios, responsável pela condução dos estímulos sexuais masculinos ou femininos. Basta lesar um desses neurônios para que o inseto não consiga se acasalar adequadamente.

O ato sexual nas drosófilas obedece a um ritual bem conhecido: quando se aproxima da fêmea, o macho encosta a perna na dela, toca uma música com as asas para enternecê-la, lambe o sexo da fêmea quando a música termina e, somente depois, copula com ela durante 20 minutos, rigorosamente.
No trabalho citado, os austríacos transplantaram a versão masculina do gene fru das drosófilas machos para um grupo de fêmeas. E, num experimento paralelo, a versão feminina do mesmo gene para um grupo de machos.

Para espanto geral, as fêmeas que receberam a versão masculina de fru, quando levadas à presença de outra fêmea, adotavam o ritual masculino: tocavam a perna da outra, usavam as asas para a música sedutora e tudo mais. Quando colocadas em ambientes com moscas de ambos os sexos, elas perseguiam sexualmente outras fêmeas sem dar a mínima para o sexo oposto.
Ao contrário, quando a versão feminina de fru foi transplantada para os machos, eles se tornaram mais passivos, desinteressados pelas fêmeas e atraídos por outros machos.

No final os autores concluíram: “Os dados mostram que comportamentos instintivos podem ser especificados por programas genéticos da mesma forma que o desenvolvimento morfológico de um órgão ou de um nariz”.
Há muito sabemos que comportamentos complexos em homens e outros animais costumam acontecer sob a influência direta ou indireta de diversos genes. Geralmente são tantos que nos referimos a eles como “constelações de genes”. Por isso, a pesquisa dos austríacos causou comoção nos meios científicos e na imprensa leiga (foi matéria de primeira página no jornal Folha de São Paulo e do “New York Times”, por exemplo).

Gero Miesenboeck, professor de biologia celular em Yale, comentou os achados com as seguintes palavras: “Essa é uma demonstração soberba. Pela primeira vez fica demonstrado que um único gene é capaz de controlar um comportamento de alta complexidade. É intrigante a possibilidade de que outras características comportamentais, como reagir com violência às frustrações, fugir quando assustado ou rir quando alegre, podem estar programadas nos cérebros humanos como produtos da herança genética”.

Embora não haja certeza de que em mulheres e homens exista um gene equivalente ao gene fru da drosófila, é preciso lembrar que a genética humana sempre se valeu das drosófilas para elucidar nossos mecanismos básicos.
É muito provável que o comportamento sexual esteja sob o comando do que chamamos de programa genético aberto.

Programas abertos são aqueles em que o catálogo de instruções impresso no DNA admite, dentro de certos limites, a inclusão de informações colhidas por aprendizado, condicionamento ou outras experiências. Por exemplo, se vedarmos o olho esquerdo de uma criança ao nascer, ao retirarmos a venda três meses mais tarde ela terá perdido definitivamente a visão desse olho, embora enxergue normalmente com o outro. O programa genético responsável pela distribuição dos neurônios da retina no cérebro precisa interagir com a luz para incorporar as informações necessárias ao desenvolvimento pleno da visão.

Na biologia moderna, o espaço para o velho debate genes versus ambiente está cada vez mais exíguo. O homem é resultado de uma interação complexa entre o programa genético contido no óvulo fecundado e o impacto que a experiência exerce sobre ele. Como disse o mestre Ernst Mayr, um dos grandes biólogos do século passado: “Não existe atividade, movimento ou comportamento que não seja influenciado por um programa genético”. Considerar a orientação sexual mera questão de escolha do indivíduo é desconhecer a natureza humana.


Existe gente que acha que os homossexuais já nascem assim. Outros, ao contrário, dizem que a conjunção do ambiente social com a figura dominadora do genitor do sexo oposto é que são decisivos na expressão da homossexualidade masculina ou feminina. Como separar o patrimônio genético herdado involuntariamente de nossos antepassados da influência do meio foi uma discussão que monopolizou o estudo do comportamento humano durante pelo menos dois terços do século XX.

Os defensores da origem genética da homossexualidade usam como argumento os trabalhos que encontraram concentração mais alta de homossexuais em determinadas famílias e os que mostraram maior prevalência de homossexualidade em irmãos gêmeos univitelinos criados por famílias diferentes sem nenhum contato pessoal. Mais tarde, com os avanços dos métodos de neuro-imagem, alguns autores procuraram diferenças na morfologia do cérebro que explicassem o comportamento homossexual.

Os que defendem a influência do meio têm ojeriza aos argumentos genéticos. Para eles, o comportamento humano é de tal complexidade que fica ridículo limitá-lo à bioquímica da expressão de meia dúzia de genes. Como negar que a figura excessivamente protetora da mãe, aliada à do pai pusilânime, seja comum a muitos homens homossexuais? Ou que uma ligação forte com o pai tenha influência na definição da sexualidade da filha?

Sinceramente, acho essa discussão antiquada. Tão inútil insistirmos nela como discutir se a música que escutamos ao longe vem do piano ou do pianista.
A propriedade mais importante do sistema nervoso central é sua plasticidade. De nossos pais herdamos o formato da rede de neurônios que trouxemos ao mundo. No decorrer da vida, entretanto, os sucessivos impactos do ambiente provocaram tamanha alteração plástica na arquitetura dessa rede primitiva que ela se tornou absolutamente irreconhecível e original.

Cada indivíduo é um experimento único da natureza porque resulta da interação entre uma arquitetura de circuitos neuronais geneticamente herdada e a experiência de vida. Ainda que existam irmãos geneticamente iguais, jamais poderemos evitar as diferenças dos estímulos que moldarão a estrutura microscópica de seus sistemas nervosos. Da mesma forma, mesmo que o oposto fosse possível – garantirmos estímulos ambientais idênticos para dois recém-nascidos diferentes – nunca obteríamos duas pessoas iguais por causa das diferenças na constituição de sua circuitaria de neurônios. Por isso, é impossível existirem dois habitantes na Terra com a mesma forma de agir e de pensar.

Se taparmos o olho esquerdo de um recém-nascido por 30 dias, a visão daquele olho jamais se desenvolverá em sua plenitude. Estimulado pela luz, o olho direito enxergará normalmente, mas o esquerdo não. Ao nascer, os neurônios das duas retinas eram idênticos, porém os que permaneceram no escuro perderam a oportunidade de ser ativados no momento crucial. Tem sentido, nesse caso, perguntar o que é mais importante para a visão: os neurônios ou a incidência da luz na retina?

Em matéria de comportamento, o resultado do impacto da experiência pessoal sobre os eventos genéticos, embora seja mais complexo e imprevisível, é regido por interações semelhantes. No caso da sexualidade, para voltar ao tema, uma mulher com desejo sexual por outras pode muito bem se casar e até ser fiel a um homem, mas jamais deixará de se interessar por mulheres. Quantos homens casados vivem experiências homossexuais fora do casamento? Teoricamente, cada um de nós tem discernimento para escolher o comportamento pessoal mais adequado socialmente, mas não há quem consiga esconder de si próprio suas preferências sexuais.

Até onde a memória alcança, sempre existiram maiorias de mulheres e homens heterossexuais e uma minoria de homossexuais. O espectro da sexualidade humana é amplo e de alta complexidade, no entanto; vai dos heterossexuais empedernidos aos que não têm o mínimo interesse pelo sexo oposto. Entre os dois extremos, em gradações variadas entre a hétero e a homossexualidade, oscilam os menos ortodoxos.

Como o presente não nos faz crer que essa ordem natural vá se modificar, por que é tão difícil aceitarmos a riqueza da biodiversidade sexual de nossa espécie? Por que insistirmos no preconceito contra um fato biológico inerente à condição humana? Em contraposição ao comportamento adotado em sociedade, a sexualidade humana não é questão de opção individual, como muitos gostariam que fosse, ela simplesmente se impõe a cada um de nós. Simplesmente, é!