segunda-feira, 30 de maio de 2016

EVANGÉLICOS - GENTE CHATA


No começo, o crescimento se deu em silêncio, praticamente ignorada pelas classes médias. Os templos evangélicos surgiam nas cidadezinhas perdidas e nas periferias miseráveis das metrópoles. Já não é mais assim. As catedrais milionárias estão se multiplicando como uma praga no Brasil. Há meio século os evangélicos são a religião que mais cresce no país. Nos últimos 20 anos, mais que triplicou o número de fiéis: De 7,8 milhões de pessoas em 1980 para 26,4 milhões em 2001, um pulo de 6,6% para 15,6% da população brasileira. Em algumas cidades, nem tanto, mas em outras, não parece longe o dia em que eles representarão mais de 50% dos habitantes. Com mais de 400 anos de atraso, finalmente estamos sentindo os efeitos da Reforma protestante que varreu a Europa no século 16.

Um terreno do Céu
Evangélicos, é a mesma coisa que protestantes. As duas palavras são sinônimas. Evangélicos são praticamente todas as correntes nascidas do racha entre o teólogo alemão Martinho Lutero e a Igreja Católica, em 1517. O alemão estava especialmente chateado com o comportamento dos padres, que, segundo ele, tinham virado corretores imobiliários do céu, comercializando indulgências – vagas no Paraíso para quem pagasse. Lutero abriu a primeira fenda no até então indevassável poder papal sobre as almas do Ocidente. A ele se seguiram outros.  

Os protestantes recusavam a ideia de que um único líder – o papa – deveria guiar os rumos da religião. Foi isso que começou a fragmentação do movimento em diversas correntes, com pequenas diferenças doutrinárias. Surgem os batistas, os metodistas, os presbiterianos... Mas o Brasil colonial passou quase imune à avalanche protestante. Houve apenas algumas exceções, como os calvinistas franceses e holandeses que invadiram o país – o primeiro culto evangélico por estas terras foi celebrado por franceses no Rio de Janeiro, em 1557, só 57 anos depois da missa católica inaugural. Era proibido realizar cultos de qualquer religião que não o catolicismo no território português.

A liberdade religiosa no Brasil só veio com a independência, na Constituição de 1824, ainda que impondo restrições de que as reuniões acontecessem em locais que não tivessem “aparência exterior de templo”. No mesmo ano, alemães fundaram a primeira comunidade luterana do Brasil. Logo depois chegaram as correntes missionárias, como os metodistas, dispostas a pregar nas ruas para salvar almas. No início do século 20, a fundação de duas igrejas seria decisiva para definir o perfil evangélico nacional: A Congregação Cristã no Brasil, inaugurada em São Paulo pelo italiano Luigi Francescon, em 1910, e a Assembléia de Deus, aberta um ano depois em Belém pelos suecos Gunnar Vingren e Daniel Berg. Apesar da origem européia, eles chegaram ao país via Estados Unidos, onde se envolveram com uma nova corrente protestante, o pentecostalismo, um grupo que crescia em popularidade por lá desde a virada do século. Começou aí o que o sociólogo Paul Freston chama de “a primeira onda do pentecostalismo brasileiro”.


A Deus é amor fundada por Davi Miranda, é uma das mais rigorosas em termos de regras entre as pentecostais. Ela proíbe frequentar praias, praticar esportes ou participar de festas. Às mulheres, é vetado cortar o cabelo e depilar. Crianças com mais de 7 anos não podem jogar bola, graças a um versículo bíblico que diz “desde que me tornei homem, eliminei as coisas de criança”. Tantas regras têm compensação: Para os pentecostais, o melhor da vida está reservado aos fiéis para depois da morte. Até a década de 50, esse modelo reinou sozinho no pentecostalismo nacional. Fez sucesso, mas ficou restrito a grupos relativamente pequenos. A chegada da “segunda onda”, no entanto, traria uma novidade. É o que se convencionou chamar de “neopentecostalismo”. Em 1951 desembarcou aqui a Igreja do Evangelho Quadrangular, inaugurando no país o pentecostalismo de costumes liberais. “Todas essas igrejas que fazem sucesso hoje são nossas filhas, netas ou bisnetas”, diz o pastor Neslon Agnoletto, do conselho nacional da Quadrangular. De fato, inovações como os hinos com ritmos populares, a forte utilização do rádio e regras de comportamento menos duras, todos ingredientes indispensáveis do “evangelismo de massas”, foram práticas importadas pela Quadrangular, fundada nos Estados Unidos em 1923.

Para isso, algumas adaptações aconteceram: Saem os homens de terno e as mulheres de pelos nas pernas, entram pessoas que se vestem com roupas comuns e não se animam a seguir normas rígidas de conduta. A primeira inovação foi riscar do mapa o ascetismo, o sectarismo e a crença de que a melhor parte da vida está reservada para o Paraíso. A preocupação dos neopentecostais é com esta vida. 

Outra diferença é a radicalização da divisão do universo entre Deus e o Diabo. Para os neopentecostais, os homens não são responsáveis pelos atos de maldade que cometem: É o Diabo que os leva a pecar. Numa sessão de descarrego da Igreja Universal, o pastor explicou que, se o fiel enfrenta um problema há mais de três meses, é provável que esteja carregando um encosto. “Se a dificuldade completar um ano, daí não há dúvida: A culpa é do demônio”, disse para a congregação. Ele não se referia só a entraves financeiros ou comportamentais. A receita vale para tudo, inclusive para doenças incuráveis. Assim, expulsar o demônio do corpo é a receita única para todos os males, de casamento infeliz até câncer no pulmão. Mas a "formula mágica" da Universal não passa de ilusão e persuasão psicológica.   

O Evangelho Segundo os Profetas da Prosperidade. 
O crente dá ordens a Deus e determina o que pretende. No Brasil, além da Universal, a Renascer em Cristo, Sara Nossa Terra, Internacional da Graça e Mundial do poder de Deus adotam a teologia da prosperidade. A força de enxurrada com que o neopentecostalismo cresceu desorganizou todo o protestantismo. Mais e mais, boa parte do mundo protestante aceita a teologia da prosperidade.

China
Os Profetas da Prosperidade sabem que tem poder. Mas nunca houve tantas pessoas dispostas a ouvir e seguir suas orientações. As igrejas dão enfase na prosperidade do fiel, e que a vida abundante deve ser vivida aqui na Terra, e não no céu como antes era pregado. O crescimento do PIB na última década ajudou milhões de brasileiros a prosperar financeiramente e ter uma vida mais confortável. Logo fizeram associação entre seu progresso financeiro e a igreja. Se a carteira estava cheia de dinheiro, Deus estava prosperando. E se Deus estava com ele era graças a igreja e ao pastor. Nada mais esperto do que "confundir" o alho do crescimento econômico com o bugalho da teologia da prosperidade. Mas o benfeitor não era Deus, era a China. A segunda maior economia do mundo se tornou o comprador numero um de produtos agrícolas e minerais brasileiros. Isso fez chover "bençãos", ou melhor, dólar no Brasil ajudando a girar as engrenagens do resto da economia. Foi um dos maiores círculos virtuosos da historia da economia brasileira. Inflação sob controle, renda la em cima, desemprego la em baixo. Mas aí veio a crise, a China perdeu o folego, o governo federal pedalou na politica econômica, a inflação saiu da toca e o "demônio" do desemprego voltou a assombrar as almas. Nisso a teologia da prosperidade começou a enferrujar. Afinal de contas a formula mágica de dar dízimos e ofertas na igreja e receber 100 VEZES mais, não estava mais dando certo. E é justamente isso que fez as igrejas darem menos enfase no dinheiro e partir para o radicalismo. 

Com a crise econômica é difícil sustentar a teologia da prosperidade. A agenda moral vem a calhar.

A moral e o Conservadorismo
Uma das ordens nas igrejas é justamente não dar enfase na teologia da prosperidade em tempos de crise econômica, mas para não perder fieis levanta-se a bandeira da moralidade, compra-se uma guerra agressiva para mudar o foco. Os evangélicos invadiram o senado e tem em media 78 deputados. Existe uma frente parlamentar criadas em 2003. E sua organização tem uma agenda: A defesa da família tradicional. Temas como liberação da maconha, aborto e união civil de pessoas do mesmo sexo são ferozmente combatidos. Há juízes evangélicos que vem tentado bloquear algumas pautas que não passariam no congresso, mas tem aceitação no judiciário, que é o caso do casamento gay, e o uso moderado de drogas por exemplo. Mas nem todo evangélico concorda com essa agenda radical, muitos líderes são contra. Na verdade as igrejas competem entre si por fieis, e são concorrentes como numa empresa, e poucas coisas os unem. A agenda da defesa da família é algo que a maioria evangélica concorda. O grande problema dos fundamentalistas é simplesmente esquecer que o Brasil é laico, e não só evangélico ou qualquer religião que seja.

Promessas do céu
Mas por que cada vez mais pessoas abandonam suas religiões para tornarem-se evangélicas? As motivações para a conversão estariam nas soluções mágicas oferecidas. “Uma grande parcela da população não tem acesso ao serviço de saúde – e, quando tem, recebe atendimento precário e mal entende os médicos. É muito mais fácil, e faz mais sentido, acreditar que os problemas são causados pelo demônio e se tratar na igreja”. Não é apenas a questão médica que está em jogo. A dualidade entre Deus e o Diabo é uma das mais eficientes respostas para a eterna pergunta sobre como é possível existirem tantas coisas ruins. Um presidiário pode culpar a influência do demônio pelo passado violento – uma explicação para o sucesso da religião nas prisões. Com isso, os neopentecostais respondem satisfatoriamente às questões dos nossos tempos – coisa que outras religiões nem sempre conseguem fazer. As igrejas seduzem com um produto atraente e oferecem bom serviço. São religiosamente adeptas da mais pura e simples mentalidade empresarial.


Dar dinheiro a Deus, seja através da caridade ou de doações, é parte da doutrina de diversas religiões, incluindo todas do braço judaico-cristão. Com a teologia da prosperidade, no entanto, o dinheiro ganhou nova função. Agora é preciso dar para receber. A Reforma protestante começou justamente porque Lutero se levantou contra a venda das indulgências. Não dá para negar que muitos realmente ganharam dinheiro com a fé alheia – em especial os líderes das grandes igrejas. Em termos legais, não há diferença entre um templo evangélico e qualquer outro local de cultos religiosos. A Constituição garante a todos – evangélicos, católicos ou budistas – a mesma isenção de vários tributos, entre eles o IPTU e o Imposto de Renda.

Além disso, o crescimento da concorrência faz ser cada vez mais difícil sobreviver entre tantas denominações evangélicas. Calcula-se que uma congregação precise ter no mínimo 50 integrantes para recolher dízimos e doações em quantidade suficiente para cobrir as despesas mínimas, como aluguel e contas de luz e água. Nessas horas, ser a religião dos pobres não é vantagem. Cerca de 80% dos católicos brasileiros se dizem não-praticantes. É um enorme mercado para os evangélicos. Não é à toa que a maioria dos convertidos vem do catolicismo. Mas, na hora de afirmar a identidade e escolher um adversário, o pentecostalismo ataca o candomblé e a umbanda, escorregando para a intolerância religiosa. Em quase todos os templos é possível ouvir que essas religiões cultuam o Diabo. Também há casos de ataques a terreiros estimulados por pastores. Pode-se dizer que a briga contra as religiões afro-brasileiras, e não contra o catolicismo, o verdadeiro rival, seja uma estratégia de marketing. 

Mas, embora possam dar a impressão de que o fanatismo religioso esteja em alta no Brasil, muitos especialistas defendem a tese de que o crescimento evangélico seja um indício do contrário: De que cada vez mais gente rejeita a religião. É o que sugerem pesquisas mostrando concentrações de evangélicos nas mesmas regiões onde há altos índices de pessoas “sem religião” – caso do estado do Rio e da zona leste paulistana. Abandonar a religião oficial é o primeiro passo de saída do mundo religioso. Um indício de que a conversão ao mundo evangélico significa um arrefecimento do fervor religioso é o fato de que as neopentecostais exigem poucas mudanças nos fiéis. O resultado é que, quanto mais crescem, menos os evangélicos mudam a cara do país – bem ao contrário da revolução que ocorreu na Europa com as idéias de Lutero e Calvino. Prova disso é a programação da Rede Record, comprada pela Igreja Universal com o dinheiro do dízimo, que pouco difere das concorrentes.

Talvez o trunfo evangélico para conquistar almas seja sua capacidade de adaptação. Com a rejeição à centralização da interpretação bíblica herdada da Reforma protestante, qualquer um pode abrir um templo e pregar como quiser. Assim, enquanto seus “irmãos” se expandiam em áreas pobres, a Igreja Bola de Neve cresceu 1000% em três anos orando para os ricos. Seus dez templos, cuja marca registrada são as pranchas de surfe como púlpito e os hinos religiosos em ritmo de reggae, funcionam em áreas de classe média-alta de São Paulo e cidades de praia como Florianópolis, Itacaré e Guarujá. O público são jovens da classe A e B, com curso superior.

No Brasil Católicos somam 123,2 milhões de fieis. Evangélicos em geral são 42,2 milhões. Espíritas 3,8 milhões. Outras religiões 1,4 milhões. Sem religião 15,3 milhões.  

Fonte: Super Interessante | IBGE 2000/2010

Resumo
Sabe qual a diferença entre evangélicos, católicos e os outros? Nenhuma! Cada um prega o que quer.